Fiz algumas poucas viagens a convite como jornalista, sempre pela Folha. As focadas em esporte se alternaram entre coberturas de eventos/torneios e visitas institucionais. Teve no futebol, no basquete, no automobilismo, no surfe.
O convidante pode ser um clube, uma federação, uma empresa, e os interesses são variados, comumente com o intuito de ampliar a cobertura de determinado jogo/campeonato ou divulgar uma ação.
Dias atrás, estive com outros jornalistas brasileiros em Leipzig (Alemanha), a convite do RasenBallsport, em tour que incluía conhecer instalações do clube (popularmente chamado de RB Leipzig, controlado por uma companhia de bebidas energéticas) e ver a partida contra o Leverkusen.
Também participaram a convite um quarteto de “creators”, pessoas que produzem conteúdo (vídeos etc.) e o exibe em plataformas digitais.
Descontraídos e brincalhões, eles não estão focados na notícia, e sim em agregar valor e construir uma comunidade em torno de um nicho. No caso do RB, o objetivo era propagandear o time para um público mais jovem no Brasil.
A programação tinha, além da visita ao novo QG do clube (moderníssimo) e ao estádio (Red Bull Arena), entrevistas com dois atacantes (o brasileiro Rômulo e o norueguês Nusa) e com um dirigente.
Formal, dentro de um protocolo. E válido, pois é assim que o jornalista entende o funcionamento e os objetivos de determinado clube e, caso queira, publica material afim –geralmente, monótono.
O inusitado, o diferente, muitas vezes chega fora do roteiro oficial: o que é visto ou ouvido nos corredores, na informalidade, que pode nem ser tão noticioso, mas foge do trivial, do “a nova sede pode abrigar 300 funcionários” (assessor de comunicação do RB) ao “meu ídolo é o Neymar” (Rômulo e Nusa), indo do desinteressante ao quase óbvio.
Por isso, relato o que o leitor pode não achar em outro lugar, mesmo não só eu sabendo. São os bastidores, nem sempre contados.
“Peguei a 40 porque era a que tinha. Tinha também a 30, mas eu não ia pegar, foi do Sesko.” (De Rômulo, durante almoço, esquivando-se do número da camisa do esloveno, artilheiro do RB que saiu antes de ele chegar, a fim de evitar comparações)
“Sabe quanto o Rômulo ganha? 125 mil euros. Livre de impostos.” (De alguém que esteve na casa dele para jogar videogame, sobre o salário mensal, cerca de R$ 820 mil)
“Por aqui, por aqui, por aqui.” (De assessor do RB, enfatizando, preocupado, a direção a ser tomada durante o tour no QG, ao notar que Jürgen Klopp, badalado ex-técnico do Liverpool e chefe de futebol da Red Bull, estava em reunião, em sala aberta, e poderia ser interrompido – certamente seria– pelos jornalistas, o que não era desejado)
“O que eles publicam é sempre quente, pode confiar.” (De representante da Bundesliga quando falávamos sobre a revista Kicker, focada em futebol, acrescentando que o veículo “molha a mão” de fontes para obter informações privilegiadas)
“Aí balança.” (De Rômulo, em comentário a um “creator”, sobre o que faria se recebesse proposta para jogar no Santos, seu time do coração)
Tudo sem câmeras, sem gravações. Pode tudo ser negado. Mas tudo eu vi e ouvi.
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